segunda-feira, 3 de junho de 2013

“Você me perguntou qual o conceito de vazio e eu não sei te responder sem ser clichê; vazio é tudo que não te tem. Vazia é minha cama e os potes de biscoito que você tanto gosta, vazio é o Box do banheiro às dez horas e as musicas do meu MP4. Vazio é meu apartamento de um quarto e os dias sem você. Eu queria te dizer isso. E queria muito chorar, chorar até amanhã sem ninguém pra reclamar. Chorar escutando o tempo não para, que foi a música que você falou no ultimo dia que nos encontramos, há sete meses. Chorar não só pela música ter sido indicação sua, mas pela música em si, pela letra e pela voz doo Cazuza ecoando na minha cabeça; “o tempo não para, não para” e não para mesmo porque se parasse eu estaria cheia, quiçá transbordando. Se o tempo parasse eu estaria contigo naquela livraria do centro. Faz tempo que eu não vou a uma livraria, fui num sebo e achei o livro do Bukowski por 15 reais e passo meu tempo lendo e escutando novas músicas. Porra, você me fez ter raiva do Cazuza. E da minha mãe que me avisou que você não era homem pra mim e das minhas amigas que quando deveriam ter me apresentado outro cara não me apresentaram e ficaram bolando encontros pra nós. Você me fez ter raiva de mim mais do que nunca. E desde o dia que você se foi e por tantos outros motivos depois que me formei fico nesse apartamentinho que enfim consegui comprar trabalhando de jornalista naquele jornal que eu sei que você lê, e que deve lembrar de mim (eu torço pra que lembre). Eu não tenho motivos pra estar assim pra quem vê de longe: consegui meu emprego de jornalista e estou cheirando a café com livros por toda a casa. Mas só pra quem vê de longe e todo mundo vê de longe porque eu criei uma barreira que ninguém além de você conseguiu ultrapassar, nem minha família, nem meus amigos mais próximos e nem minha psicóloga mal comida. Eu queria te dizer também que a janela do meu apartamento me convida a pular, que os remédios na farmácia do banheiro me chamam pra toma-los e me desligar de tudo. Mas eu não tenho coragem pra isso. E não tenho coragem pra nada nem pra te ligar e dizer essas coisas. É isso, o tempo não para certo? Então eu vou parar de escrever cartas que você nunca vai ler a não ser que volte. E eu tenho uma pontinha de esperança por isso que calejo os dedos nesse caderninho embolorado (escrevendo coisas sobre nós que ninguém entende e nunca vai entender) e ensurdeço os vizinhos escutando Bob Dylan. (eu preciso sair daqui).”
Luanna Cavalcanti.